O dia a mais é o dia a menos
a noite tranquila
desconhece o tormento
da mente que perambula pelas vielas
observando as notícias e não novelas
eis aqui um corpo
que carrega uma vida
a história de alguém
o coração nunca mais bateu
os olhos nunca mais abriram
aquele corpo que já foi abrigo
e o abraço quente de alguém
agora é gélido
morto
embaixo da terra
para nunca mais acordar
a pessoa que sempre esteve ali
agora não mais está
houve um momento em que foi o último
o piscar final dos olhos
último batimento cardíaco
última respiração
ninguém sabe
hoje estou
amanhã não
nada restou
as mãos gélidas
do corpo sem vida
enterrado num buraco primitivo
adubando o solo
fui o amor de um
fui o filho de outro
o neto daquele
o funcionário exemplar
mas no dia seguinte a empresa abriu
a avó levantou e passou o café
e de quem eu era amor
hoje sou lembrança
amanhã talvez
depois eu não sei.
Thábata Piccolo
Curitiba, Primavera 2025


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